terça-feira, 15 de maio de 2012

"[...] – Você parece mais dura hoje em dia.
– Mais decidida, você quer dizer.
– Talvez – digo e retorno ao estado de mudez, acompanhando o tráfego janela afora.

Não sei onde ela está me levando, digo, o endereço onde a coisa vai acontecer. Mas dá pra ver, pela determinação e tudo, que ela passa pela frente todos os dias, indo para seu escritório, e acho que ela tem várias ideiais sacanas ao cruzar com a fachada em neon vermelho, espero que alguma das fantasias me inclua – éramos ótimos juntos, naquele tempo. Ela foi a melhor transa que já tive, não tecnicamente, mas sim se o teor da conversa incluir intimidade, paixão e capacidade de se aventurar em alguma esquisitice. Tínhamos onze, doze anos a menos e uma curiosidade sem fim, uma fome de mundo.

Trepávamos muito, conversávamos, nos envolvíamos em comidas vegetarianas, brigávamos por ciúme das vizinhas (e das minhas colegas na faculdade, primas, enfim, qualquer uma), fumávamos um cânhamo, líamos poesias um para o outro: ela gostava de E. E. Cummings, eu de Augusto dos Anjos. Um dia, embrenhados no cobertor, assistidos pela luz amarelenta do quarto, me debrucei sobre seus encantos e recitei em sua orelha morna um verso escrito especialmente:

Encantado pelo som do teu mar / Deixei tua onda pegar e me levar.
O resto não lembro. Sabíamos, naquele tempo, como tornar as coisas inesquecíveis, e agora sofremos na distância do próprio “mal” que criamos. Amei aquela pequena de 1999 por três anos a jato, com a ingenuidade, a paixão e a dedicação de um soldado patrício. E depois os anos foram passando, ela casou, eu andei por aí, a gente nunca mais se viu nem se falou, seria estupidez manter contato com aqueles olhos de coruja que ela tem, aquelas pupilas que puxam, e o medo e o desejo acabam brigando de soco dentro da gente. E agora o acaso nos oportuniza esse revival. Uma versão adulta e séria daquele casalzinho bonito e visguento e apaixonado da última década. Por pouco, ela não me arruina para outras mulheres.
[...]
 Enfim, é assim que eu gosto de vê-la: sentindo. Hoje é ira e desprezo. Amanhã é paixão e carinho. Quem é capaz de explodir de raiva, também é capaz de explodir de amor."

Ganito Nunes

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